O Álcool e o Coração
DOI:
https://doi.org/10.35753/dxv38r77Palavras-chave:
Consumo de Álcool, Cardiomiopatia Alcoólica, Doença Arterial Coronariana, Hipertensão Arterial, Arritmias CardíacasResumo
O consumo de álcool representa uma exposição modificável de elevada relevância para a saúde cardiovascular, cujos efeitos dependem da quantidade ingerida, do padrão e da duração do consumo e da suscetibilidade individual. Esta revisão narrativa analisa criticamente as evidências sobre sua relação com cardiomiopatia e insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, hipertensão arterial e arritmias, com ênfase nos mecanismos fisiopatológicos e nas implicações clínicas. A exposição crônica e excessiva ao etanol e ao acetaldeído favorece estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, alterações da homeostase do cálcio, ativação neuro-hormonal, inflamação e fibrose, contribuindo para remodelamento ventricular e disfunção sistólica. Fatores genéticos podem modificar a vulnerabilidade miocárdica. Na hipertensão, estudos longitudinais demonstram associação positiva entre consumo e elevação pressórica, enquanto intervenções para redução da ingestão apresentam maior benefício entre consumidores de grandes quantidades. Esses resultados devem ser diferenciados dos efeitos agudos bifásicos, caracterizados por redução pressórica inicial e elevação tardia após doses elevadas. Entre as arritmias, a associação é mais consistente para fibrilação atrial, envolvendo alterações eletrofisiológicas, autonômicas e estruturais, tanto no consumo habitual quanto em episódios excessivos. A evidência referente a outras arritmias é, entretanto, menos bem estabelecida. Para a doença coronariana, associações aparentemente protetoras com consumo leve a moderado permanecem sujeitas a confundimento residual, causalidade reversa e classificação inadequada dos abstêmios. Estudos de randomização mendeliana questionam a interpretação causal desses achados, sem justificar recomendações de consumo preventivo. A redução do consumo elevado também se associa a menor ocorrência de eventos cardiovasculares em estudos observacionais. A avaliação clínica deve considerar gramas de etanol, frequência e padrão de ingestão, evitando equivalências automáticas entre diferentes definições de dose. O aconselhamento individualizado para redução ou cessação integra a prevenção e o cuidado cardiovascular, com supervisão apropriada quando houver dependência. Persistem incertezas sobre pequenas quantidades e desfechos específicos, mas consumo de menor risco não equivale a consumo seguro.